Editorial
Este quarto número do nosso vozeiro nacional sai à rua num momento de reflexão. Passaram dous anos das eleições municipais. A posição do PSOE cada dia é mais débil, os casos de corrução a nível estatal e a pouca estabilidade que oferece a nível galego demonstram que o PSOE é e será um dos piares fundamentais do regime do 78, a sua asa social-democrata e que serve para reafirmar baixo um certo “malmenorismo” o centralismo e a reforma de um sistema inviável. Desde o Movemento Arredista cremos que a solução deve passar pela conformação de uma alternativa forte dentro do soberanismo que vaia além do eleitoralismo e que não seja acomodatícia na ação institucional e sempre lutamos para criar as ferramentas necessárias com que intervir no movimento popular desde posições revolucionárias. No artigo de Noa Presas e David Soto, explicitamos uma folha de rota para o BNG neste novo ciclo político posterior às eleições municipais e nacionais. Nelas, o nacionalismo demonstrou que, sem renunciar a nada, com um processo de clarificação ideológica e com uma estrutura em que a militância pode participar na luta na rua e nas instituições, é capaz de auto-organizar o povo galego em torno a uma alternativa ao regime do 78 com um programa de máximos para a Galiza.
De igual modo, a situação internacional é algo em que fixar a nossa mirada. De novo o PSOE move o Estado espanhol cara a um debate estéril sobre prazos e recortes noutras áreas como a cultura ou a sanidade. Como se explica no artigo do companheiro Óscar Valadares, o debate baseia-se numa iminente ameaça que nunca chega e o rearme e a desaparição de certa parte da economia num castelo no ar em que as potências imperialistas parecem indicar que eles ou o caos quando é bem sabido que o caos são eles mesmos. O complexo industrial-militar não pode ser a força que movimente os estados. Foram lá dous anos das eleições, mas os ataques à classe obreira não se reduziram, o imperialismo recrudesce-se na Gaza e o BNG deve ser a ponta do anti-imperialismo nas ruas e nas instituições.
No artigo de Ximena González tratam-se as Estratégias de Seguridade Nacional, políticas de segurança que desde o 2011 no Estado Espanhol se elaboram em teoria para criar uma “cultura da segurança” mas é na realidade uma forma de ver até onde pode chegar o Estado desativando certos movimentos de contestação em base a que não é tolerável ir na sua contra. No artigo faz-se uma história de como foi evoluindo esta estratégia e como é uma constante nos partidos do Regime do 78 que se servem desta para reforçar o sistema e toda contestação crítica a ele em base de uma série de consensos em que o independentismo e o socialismo não tenhem lugar.
A situação da Palestina também é parte consubstancial deste número. Mantivemos uma entrevista com Fayed Badawi, militante do FPLP, que desde uma olhada centrada no território e desde o marxismo trata a história da Palestina, uma história ligada à ocupação mas também à luta de classes, demonstrando que o marxismo é a ferramenta para entender o mundo. Uma cosmovisão, a marxista, que no caso palestiniano tem de ser complementada de uma leitura da questão nacional. Fayed Badawi mostra, desde a sua história resistente, que a luta do povo palestiniano é uma luta necessária para desfazer certos relatos.
Na entrevista a Fayed Badawi a língua tem um lugar predominante sendo para ele o primeiro que ataca o inimigo. Na Galiza atual, os dados de uso do galego cada vez são mais preocupantes. As companheiras Santiago Quiroga e Élia Lago tratam no seu artigo estratégias para a galeguização social. Uma apertura a um programa em que a língua passe de língua litúrgica a língua funcional. No artigo colocam o alvo na socialização infantil como ponto fundamental onde tentar reverter o apagamento do galego na escola. Também a oferta linguística para a gente que vem viver à Galiza deve ser fulcral para que a língua sobreviva. A proposta passa por prestigiar o idioma e fazer dele a ferramenta para tratar os problemas que o povo tem; politizar o idioma, em suma.
Durante o 2025 celebram-se os 25 anos da Marcha Mundial das Mulheres e a comissão nacional de feminismo do Movemento Arredista elaborou um artigo em que historiza a ação feminista da MMM dentro do âmbito galego, a história de uma organização anticapitalista, anti-imperialista e que ainda sendo internacional mantem uma agenda própria na Galiza. Esta agenda própria e a sua claridade ideológica é parte da sua fortaleza como ferramenta para conseguir uma hegemonia que ajude ao país e à melhora da vida das mulheres galegas. Fortalecer ferramentas como a MMM deve ser uma tarefa do dia a dia para alcançar a soberania plena do nosso país.
Uma das tarefas do presente e do futuro é organizar desde o comunismo uma resposta à crise ecológica e assim artelhar uma nova forma de entender o mundo que vem. No artigo de Júlio Conde atopamos uma leitura materialista do termo “desenvolvimento sustentável” e como este devéu um termo fetiche para os discursos do capital, que o utilizam como forma de poder conciliar entre o crescimento desaforado que o capitalismo necessita para se desenvolver e a conservação ambiental. Na atualidade, a esquerda está a debater acerca desta questão que já fora tratada por Marx com a ruptura metabólica. O artigo é um convite ao debate em geral, mas também para tratar no caso galego sobre se pode existir um comunismo sem crescimento.
A tarefa a levar a cabo é a de organizar a juventude. No artigo sobre a folha de rota da mocidade arredista e comunista podemos ver uma leitura do momento atual desde a mocidade. A receita é antiga, mas é a que consideramos acertada: a força da mocidade passa pelo rearme ideológico, passa pelo marxismo, passa por uma folha de rota para fazer a Galiza independente. A militância, a organização por trás de um programa avançado, o compromisso e a mobilização são as claves. Mas tudo isto deve de afirmar-se fazendo uma analise ponderada da realidade. Um programa de máximos não pode existir sem analisar a realidade. A tarefa da juventude é socializar este programa sem deixar de lado o trabalho no dia a dia noutras frentes em que poder pular pela República socialista galega que buscamos. Desde o Movemento Arredista declaramo-nos seguidores de um fio vermelho que vai desde Lenine, passando por Gramsci, as lutas das Encrovas, Baldaio, Xove ou militantes como Moncho Reboiras. A ruptura tem de vir da acumulação de forças populares e para isto é imprescindível a clarificação ideológica e uma prática coerente.
Desta capacidade do nacionalismo popular para saber organizar o povo versa o artigo de Erea Blanco no que adota o exemplo de Moncho Reboiras, do que este 2025 se faram 50 anos do seu assassinato a mãos dum franquismo que se negava a morrer. Reboiras oferece desde o passado um legado totalmente contemporâneo. Fora das leituras panegíricas da figura de Reboiras que fossilizam em dogma, desde o Movemento Arredista reivindicamos uma aproximação desde o trabalho político no dia a dia nos centros de trabalho, no sindicato, na escola, na rua. Uma filosofia da praxe revolucionária, a construção da alternativa, o movimento real que faz que tudo mude. Aprender sempre, aprender dos que nos precederam, mas sem olvidar que se somos é porque foram.



