O que fai falta

Artigo de Óscar Valadares, analista internacional e portavoz de Mar de Lumes

880 mil milhons. Isso é o que, em março deste ano, diziam os líderes europeus que custa a nossa “segurança”. Ninguém falou desde entom do que um tsunami destas proporçons vai produzir nos sempre tensos orçamentos dos estados que adiram ao plano ReArm Europe — que nom é opcional. Por outras palavras: ninguém explicou a sério, para que a maioria social fique a saber e para que verdadeiramente se entenda, de onde é que vai sair esse dinheiro, e tampouco que é isso da nossa “segurança” em que é que se vai traduzir, além de em indecentes quantidades de dinheiro público para a guerra. Todo o mais que se nos assegura, à menor oportunidade, é que “fai falta”.

Só para termos contexto: entre 2021 e 2024, o gasto total em defesa por parte dos estados membros da UE aumentou 30%, até 326 mil milhons de euros (1,9% do PIB combinado da UE). Espectacular, mas nada de novo: os gastos nom tenhem parado de crescer desde 2014, a um ritmo cada vez maior. A previsom é, para já, mobilizar mais 100 mil milhons adicionais em termos reais antes de 2027. Isto é, duplicar em dois anos o investimento actual, que em 2024 se situou em 102 mil milhons. E isto só no que tem a ver com o aprovado no seio da UE, sem contar o novo horizonte de gasto aprovado na vergonhenta cimeira da OTAN no final de Junho.

Mas voltemos para os 880 mil milhons, que, como dizia Castelao, o conto é triste. Ninguém explica de onde é que sai a cifra nem quais fôrom as bases para os cálculos, nem quem os realizou, nem a quem beneficiam na realidade. Mas, pior ainda, tampouco ninguém assegura que as contas estejam bem botadas. E há sérias dúvidas de que assim seja, se tivermos em conta que só quatro meses depois do acordo da UE, nesta cimeira de OTAN na Haia, praticamente todos os membros da UE, que som também membros da OTAN, venhem de assinar um novo pacto que eleva o objetivo até 5% do PIB. Em termos do Estado espanhol, que em abril anunciava um incremento de 10,4 mil milhons para o ministério da guerra, significa atingir um orçamento à volta de 85 mil milhons. Isto é, quase triplicar a conta.

Porém, como já alertámos através da Plataforma Galiza pola Paz, da que o Movemento Arredista fai parte, nom podemos ensarilhar-nos num debate sobre prazos nem sobre percentagens do PIB — que nom se sustenta nem sequer em termos técnicos. Tampouco admitir um debate onde os sinistros líderes das potências imperialistas e os seus replicantes mediáticos invocam o conceito de segurança e colocam como único argumento que gastar mais dinheiro na guerra “fai falta”. Quando o fundamento é umha pretensa ameaça iminente de invasom da Europa, nom se está a apresentar um debate. Está-se-nos a sinalar a porta de um redil para que nós, como se fôssemos gado, optemos pola saída certa.

Para o debate que si queremos dar, que nom é com os imperialistas nem com os seus aliados e parvos úteis, mas sim com o nosso povo, é fundamental recorrermos a toda a nossa capacidade pedagógica: há que falar do dinheiro de todas e todos nós que vai deixar de ser empregado para melhorar as nossas vidas e vai ir directo ao complexo industrial-militar, que nom só existe nos Estados Unidos, que só na UE gerou em 2023 um volume de negócios de 158 mil milhons de euros e para o que há que começar também a apontar com o dedo.

Há que colocar acima da mesa o que implicam as contas dos poderosos para o nosso povo. Assumindo que o gasto de um ministério de defesa carregado de esteroides se repartisse equitativamente entre todos os habitantes do Estado (a palavra chave é “equitativamente”, mas já sabemos que nom vai acontecer), na Galiza a conta seria de 4,7 mil milhons de euros — que, por certo, é nom já o 5%, mas o 6,1% do PIB do país. Há que explicar de onde vam sair esses fundos, quais partidas dos orçamentos se vam ver minoradas e em que proporçom e que é o que vai significar em termos concretos. Também nom é necessária demasiada imaginaçom. Mark Rutte, o secretário-geral da OTAN, já marcou há semanas o caminho: políticas sociais, sanidade, educaçom e pensons som o objetivo. De modo que: quantas praças de hospitais e quantas unidades educativas nos vai custar? Quantos pacotes de políticas sociais ou ambientais vam ficar cancelados ou em suspenso? Quanto se vam alongar os prazos para receber as ajudas de dependência ou para umha intervençom cirúrgica? É desses prazos que há que falar. Mas nom só.

Em base à atual divisom internacional do trabalho, tampouco é demasiado arriscado aventurar qual vai ser o papel que a Galiza jogará na cadeia de subministros de umha economia militarizada: as terras raras no Galinheiro ou em Valdeorras que levam anos no ponto de mira de fundos estrangeiros à espera de que um valor de mercado inflado artificialmente justifique o investimento resultam, cada dia que passa, mais cobiçáveis. Só é necessário quadrar os interesses dos especuladores com os de um governo galego encantado de converter o país numha mina de norte a sul e de leste a oeste. Nom há de ser mui difícil, tristemente.

As terras raras no Galinheiro ou em Valdeorras que levam anos no ponto de mira de fundos estrangeiros à espera de que um valor de mercado inflado artificialmente justifique o investimento resultam, cada dia que passa, mais cobiçáveis

Enfim, o que temos que debater com o nosso povo é se temos qualquer cousa a ganhar convertendo as instalaçons militares de Ferrol, de Figueiredo ou do Monte Iroite ou as do aeródromo de drones de Rozas em possíveis objetivos bélicos. Se temos algo a ganhar militarizando a nossa economia, minguando os nossos serviços públicos e esbanjando quantidades absurdas de dinheiro em armas e muniçons que, em lugar de criar riqueza, tenhem como única funçom serem destruídas no seu uso e, de passada, destruír outras riquezas. E, como pano de fundo, se fai algum sentido teimar num modelo baseado na intimidaçom e na agressom que fia todo o nosso futuro a perpetuar um império global num cenário que é cada vez mais aberto e com mais atores no taboleiro. A OTAN e o resto de ferramentas à mão do imperialismo oferecerem-nos toda umha história, sangrenta e suja, de exemplos em que essa defesa e a proteçom contra o inimigo externo significavam ataques, golpes de estado, mudanças de regime, bloqueios e embargos, invasons etc. Dim-nos que, pola nossa segurança, todo isso é o que “fai falta”. Mas nós sabemos, como dizia José Afonso, e como temos visto em inúmeros conflitos sociais, que o que de verdade fai falta é agitar a malta. Maos à obra.

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